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Para o biênio de 2018 e 2019, mais de 1 milhão de pessoas receberão o diagnóstico de câncer (dados do INCA – Instituto Nacional de Câncer). A Oncologia brasileira acumula diversas conquistas e na última década transformou a doença, que antes era considerada uma sentença de morte, em um problema de saúde altamente curável. Mas ainda há muito o que fazer...

Nos dias 26 e 27 de setembro de 2017, mais de 3 mil pessoas compareceram ao 4º Congresso Brasileiro Todos Juntos Contra o Câncer, iniciativa do Movimento TJCC que objetiva somar esforços, conhecimentos e recursos para fortalecer cada vez mais a Saúde e proporcionar as melhorias necessárias no que diz respeito à política nacional de prevenção e controle do câncer.

Durante o evento, foram debatidos diferentes temas, sempre com foco em garantir menor impacto na vida dos brasileiros que enfrentam direta ou indiretamente o câncer.

Nesta News, preparamos para você um resumo dos painéis, com as principais discussões apresentadas por especialistas nas diferentes áreas que envolvem a Oncologia, como acesso, financiamento, humanização, judicialização e inovação.

Lembrete! O 5º Congresso Brasileiro Todos Juntos Contra o Câncer já tem data: de 25 a 27 de setembro, em São Paulo. Temos certeza que suas propostas e colaborações farão enorme diferença neste cenário, e contribuirão para acelerar o fortalecimento desta rede. Participe! www.tjcc.com.br

Clique nos botões a seguir e saiba mais detalhes de todo o evento

Abertura


Painéis

Participam deste Movimento:

GRUPOS DE TRABALHO

No início de 2017, foram criados os Grupos de Trabalho para que as ações do Movimento TJCC, em suas diferentes áreas, tivessem andamento.

“Em setembro de 2014, nos reunimos com a proposta do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer. A partir deste momento, percebemos que era importante criarmos ferramentas para monitorar as ações e somar esforços com o Governo. Em 2015 consolidamos a Declaração para a Melhoria da Atenção ao Câncer no Brasil, que compilava os principais fatos discutidos no Congresso, com algumas das soluções propostas para avançarmos na implementação da política. Em 2016 lançamos o Observatório de Oncologia, plataforma on-line para consolidação, análise e publicação de dados abertos e compartilhamento de informações relevantes da área de Oncologia do Brasil. Em colaboração com dezenas de entidades no país, levamos propostas ao Governo e algumas ações foram bem-sucedidas. Em 2017 propusemos fortalecimento do trabalho da rede, formando Grupos de Trabalho com os principais experts do país e estamos muito contentes e otimistas com os resultados que podemos alcançar”, declarou Merula Steagall, presidente da Abrale e líder do Movimento TJCC.

Propostas e depoimentos dos GTs

Dados Públicos e Privados

“Nosso grande desafio era trabalhar os dados, sempre com foco no paciente. A missão do nosso grupo é realizar a gestão da informação, de maneira a oferecer aos demais grupos subsídios para sua atuação. São milhares de dados existentes, mas todos estão separados. Estes dados precisam ser vistos em conjunto, para entendermos como vem acontecendo o tratamento oncológico no Brasil”, Tiago Cepas, pesquisador da Abrale.

Promoção da Saúde e Prevenção

“Nossa missão, enquanto políticas públicas, é mudar o contexto. Óbvio que o indivíduo é muito importante. Mas não adianta o indivíduo ser consciente, se na hora de fazer uma escolha saudável tudo for mais difícil. A lei antifumo é um bom exemplo, pois com ela não se faz o estímulo ao uso do cigarro. E acredito que as políticas públicas podem nos ajudar inclusive com os fatores obesidade e alcoolismo”, Paula Johns, presidente da ACT.

Rastreamento e Diagnostico

“No início, o grupo foi pensado apenas para falar sobre a prevenção do câncer. Mas no meio do caminho identificamos a necessidade de tratarmos também sobre o rastreamento. Nosso objetivo é criar um cenário ideal tanto para a prevenção, quanto para o rastreamento, pensando na melhoria e simplificação do acesso aos exames, na conscientização da prevenção do câncer e também na redução da falha do diagnóstico. Para isso, temos trabalhado diversos dados e também estamos pensando em uma plataforma on-line para disponibilizarmos essas informações”, Rita Domingues, coordenadora de projetos do Instituto Vencer o Câncer.

Humanização e Integralidade no Tratamento Oncológico

“Nosso principal desafio é fazer com que a política de humanização seja incorporada na política do câncer. Não é uma missão simples, mas esperamos que todos os pacientes tenham acesso a um ambiente de tratamento acolhedor, de escuta qualificada, de parceria e informação. Queremos empoderar o paciente e ter equipes de saúde bem treinadas para o exercício da humanização no cotidiano”, Vera Bonato, coordenadora do Serviço da Qualidade do Instituto do Coração (Incor).

Educação

“A política nacional de educação permanente é estratégia do SUS para a formação e desenvolvimento de trabalhadores do setor. Mas na política de prevenção e controle do câncer já está previsto a formação de profissionais e a promoção de educação permanente nos três níveis de atenção (primária, secundária, terciaria). Com o apoio do Ministério da Saúde, por meio do Pronon, nosso grupo tem realizado feitos importantes. Por meio do OncoEnsino, 1.500 profissionais do SUS aprenderam conceitos de cuidados paliativos com os maiores especialistas do Brasil, e mais de 1.000 enfermeiros puderam atualizar seus conhecimentos em Oncologia. Até o final deste ano mais de 7 mil profissionais serão capacitados em diferentes áreas da Oncologia”, Leandro Mião, coordenador do projeto Oncoensino, da Abrale. 

Pesquisa Clínica

“Nós entendemos que a pesquisa clínica traz inovação e desenvolvimento de novos medicamentos, então quanto mais os pacientes puderem ter acesso a elas, estamos promovendo a saúde. Como grupo, precisamos apoiar as ações que visam simplificar o acesso, claro, sempre pensando na segurança dos envolvidos e também fomentar os estudos aqui no Brasil”, Camille Rodrigues da Silva, sócia diretora na consultoria Inovatie Serviços em Saúde, responsável por projetos na área de Pesquisa Clínica e Medical Affairs. 

Câncer Feminino

“Nossa missão é auxiliar na redução da incidência e da mortalidade do câncer em mulheres, por meio da disseminação de conhecimento e informação e da implementação da política integral de saúde da mulher. Para nós, é importantíssimo conhecer a fundo o panorama do câncer feminino no Brasil, e por isso o grupo de dados nos ajuda muito. Outra ação é identificar quais são as lacunas em cada uma das situações, para saber onde investir mais em tratamento , em mais prevenção e onde o diagnóstico é um problema maior”, Alice Francisco, médica mastologista e paciente de câncer de mama.

Políticas Públicas

“O Movimento é político e nosso grupo atua em conjunto com todos os outros grupos. Nossa missão é subsidiar as ações políticas de todos, engajando os atores envolvidos na Oncologia. Nossos objetivos são estabelecer interlocução com as autoridades do poder público no desenvolvimento de políticas públicas na área oncológica, dar suporte na estrutura e implementação de políticas públicas do Movimento e ser instância de consolidação da Declaração, monitorando aquilo que tem sido feito e o que tem sido proposto pelos governantes”, Alber Sena, coordenador de políticas públicas da Abrale.

Outros GTs ainda em formação e que fazem parte do Movimento TJCC :

Lançamento de Estudo: CÂNCER EM NÚMEROS

A Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), em parceria com a QuintilesIMS, realizou estudo sobre o panorama do acesso às terapias oncológicas no Brasil e no mundo.

Modernas e complexas, as novidades têm alto custo e implicam em desafios enormes para a gestão dos recursos aplicados na saúde. Mais de 7 trilhões de dólares são gastos em saúde no mundo todo, por ano. Mas no Brasil há um grande problema de financiamento e nos próximos anos a demanda no setor de saúde vai aumentar muito.

“Em cerca de duas décadas, o câncer será a primeira causa de morte em nosso país. A prevenção é fundamental e de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 50% dos casos de câncer podem ser prevenidos. Para isso, são necessários programas de conscientização da doença. O Brasil tem bons programas, como o de controle do tabagismo e a política de imunização, por meio das vacinas contra o HPV. Mas é necessário investirmos muito mais”, diz Sydney Clark, vice-presidente da consultoria IMS Health.

Além da prevenção, dentre os principais achados do estudo também estão:

Diagnóstico - no relatório feito pelo TCU, em 2011, com dados de 2010, identificou-se que 61% dos pacientes tiveram o diagnóstico no estágio 3 e 4 da doença, quando as chances de cura são bem menores. Em 2016, essa taxa diminuiu para 46%, mas ainda é preciso evoluir.

Já o tempo de espera entre diagnóstico e início do tratamento piorou. Hoje, os pacientes demoram 85 dias para iniciar a quimioterapia e 127 dias para começar a radioterapia.

Tratamento – o relatório do TCU de 2011 também identificou que o Brasil tinha 264 Cacons e Unacons, com o déficit de 111 unidades. A boa notícia é que hoje temos mais centros especializados – 315. Mas a incidência do câncer também aumentou, por isso o déficit continua parecido (cerca de 111 unidades).

Em radioterapia, pouco evoluímos na cobertura. Mas em cirurgia tivemos um bom resultado – passamos de 47% para mais de 70%, talvez em função de 11 novas cirurgias serem incorporadas no ROL de procedimentos do SUS.

Outro ponto importante referente ao tratamento é a incorporação de medicamentos. É verdade que já incorporamos muito, tanto no sistema público, quanto no privado. O desafio é a ciência, que caminha a passos mais rápidos. 25% de toda a pesquisa clínica no mundo é voltada para a Oncologia e 50% de todos os medicamentos a serem lançados no próximo ano serão para o tratamento do câncer. Isso coloca uma pressão tremenda nos pagadores públicos e privados.

Gastos com a saúde e câncer - o gasto com a saúde no Brasil representou 8,3% do PIB em 2014. Ao realizar uma comparação dos gastos versus expectativa de vida é possível notar que existe a oportunidade de melhoria na eficácia do gasto em saúde e, consequentemente, na expectativa de vida. Ou seja, vive-se mais em países com mais recursos para a saúde, mas também é possível viver mais se houver eficiência nos gastos. Já o gasto do SUS com o câncer cresceu à taxa de 9% ao ano entre 2010 e 2014. Os gastos com quimioterapia e radioterapia superam R$ 2 bilhões, com expansão contínua ao longo dos últimos anos, enquanto que os gastos com cirurgias duplicaram em 2013, atingindo o patamar de R$ 400 milhões/ano.

PINGA FOGO: Tudo o que você precisa saber sobre o cenário da Oncologia

Neste painel, os dados apresentados por Sydney Clark foram comentados por especialistas em Saúde.

José Gomes Temporão, médico e ex-ministro da Saúde pontuou que para analisar a situação atual do país, no que diz respeito a tratamento em Oncologia, é fundamental entender as desigualdades sociais.

“Se a pesquisa tivesse sido separada desta maneira, tenho certeza que os resultados seriam ainda piores. Hoje o principal inimigo do paciente com câncer, e da promoção da saúde como um todo no Brasil, é a política de austeridade que está sendo implementada no país. A PEC 55, que congelou os gastos sociais por mais de 20 anos é um crime para a população. Diferente do que a grande mídia tenta passar, o principal problema do Brasil não é a corrupção”, disse.

De acordo com o Dr. Antonio Buzaid, chefe geral de Oncologia do Hospital São José da Beneficência Portuguesa e fundador do Instituto Vencer o Câncer, a falta de “dono” na saúde pública é que pode ser um dos problemas centrais.

“A principal diferença entre saúde pública e privada é que a saúde privada tem dono. Então, enquanto em um hospital o paciente é sempre bem atendido, pois caso contrário o funcionário será mandado embora, no público nada acontece. Ao meu ver, o que precisamos oferecer no país é assistência adequada”, disse.

E por falar em saúde privada, Karla Coelho, diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar destacou os gastos desnecessários.

“Hoje vemos pacientes perdidos no sistema, repetindo exames, indo a vários profissionais, sem tratamento adequado, o que gera um desperdício de gastos. Para se ter ideia, hoje, mais de 30% dos exames feitos na saúde suplementar não são utilizados. E poderíamos estar investindo este gasto em outras questões”, comentou.

Políticas públicas para medicamentos biossimilares

Todos os medicamentos biológicos de referência foram criados a partir de organismos vivos, com moléculas extremamente complexas. Após alguns anos, os laboratórios responsáveis perdem suas patentes, mas ainda assim não são obrigados a revelar sua fórmula. Com isso, os laboratórios interessados em produzir um medicamento biossimiliar fazem um processo de engenharia reversa. Isso significa que será necessária uma análise da molécula já existente para que descubram como foi produzida.

Neste painel, a farmacovigilância para o uso destes medicamentos foi o ponto principal da discussão.

Temos duas vias regulatórias para os medicamentos, justamente porque os medicamentos biológicos e os medicamentos biossimilares não são idênticos. Então uma das vias regulatórias é baseada em medicamentos que podem ser produzidos de forma idêntica (sintéticos, em genéricos), e a outra para os medicamentos que têm moléculas diferentes (biológicos ou biossimilares). Em 2010, a Anvisa fez uma revisão regulatória e aí surgiu a RDC 55, que regulariza o uso de biossimilares no país.

“Considero que um dos principais problemas regulatórios referentes à intercambialidade e denominação dos medicamentos biossimilares é que um medicamento biossimilar é biossimilar de acordo com a referência. Mas se um novo medicamento biossimilar for criado, para tratar a mesma patologia, ele não será biossimilar do outro biossimilar, e sim do medicamento de referência”, disse Dr. Valdair Pinto, Consultor em Medicina Farmacêutica.

A intercambialidade de medicamentos sintéticos está estabelecida no Brasil por lei. Ou seja, é possível trocar um medicamento por outros com as mesmas características, sem causar nenhum risco para o paciente. Mas quanto aos biossimilares, este processo ficou para os médicos decidirem.

“No Brasil, a Anvisa não regulamentou este procedimento, o que é um pouco frustrante, afinal é necessário um estudo bem embasado para saber se um medicamento biossimilar é de fato tão eficiente quanto o outro, para assim ser receitado pelo médico. Sem um sistema robusto de farmacovigilância, de nada adianta realizar a intercambialidade dos medicamentos. A decisão ficou totalmente para os médicos, mas isso é preocupante, porque de acordo com um estudo da América Latina, 35% dos médicos disseram não ter familiaridade com os biossimilares”, explicou Dr. Valderilio Feijó de Azevedo, Reumatologista Chefe no Hospital das Clínicas - Universidade Federal do Panamá.

Desafios - Inovações tecnológicas em Oncologia no Brasil

Os avanços na medicina não param. A cada ano, diversas novas opções de medicamentos são lançadas, mas seus custos elevados preocupam tanto o sistema público, quanto o sistema privado de saúde.

Alguns anos atrás, 20% dos custos totais da atenção oncológica eram consumidos com o tratamento – em torno de 50 mil reais (por todo o tratamento), e passou para 30 mil reais por mês. Hoje, o tratamento pode chegar a 1 milhão de reais. E como fazer para dar acesso ao paciente?

De acordo com o Dr. Wilson Leite Pedreira Junior, diretor executivo do Centro de Oncologia e Hematologia Hospital Israelita Albert Einstein, empoderando e agindo com responsabilidade na gestão de Saúde.

“Falando especificamente sobre a saúde suplementar, quando um medicamento não é coberto pelo Rol da ANS, ainda que o médico receite, a operadora não irá cobrir. Ou o paciente irá pagar o seu tratamento, ou entrará com ação judicial. Precisamos de parceria público e privado, entre prestador, pagador e paciente. Somente modelos sustentáveis, com planejamento de longo prazo, e com estes elos trabalhando juntos é que vamos conseguir resolver a situação atual.

Uma parceria público/privada que vem dando bastante certo é a entre o Hospital Israelita Albert Einstein e Hospital Santa Catarina.

“No Hospital Santa Catarina, que é público, sei tudo o que gastamos com o paciente, do momento que ele entra no hospital até o final de seu tratamento. E isso é importante para pensarmos em projetos que diminuam tais gastos. Então se o custo maior é a cirurgia, o que posso fazer para melhorar? Fazemos parte da ERAS (Enhanced Recovery After Surgery), protocolo de intervenções para que o paciente receba a alta mais precoce e não tenha tantos problemas no pós-cirúrgico. Outra preocupação que temos é a valorização profissional. Além do reconhecimento no dia a dia, incentivamos os profissionais a criarem projetos e também pagamos pós-graduação que estes profissionais queiram fazer”, conta Dr. Diogo Bugano, coordenador do serviço de Oncologia do Hospital Municipal Vila Santa Catarina.

 

Advocacy no tratamento oncológico

A saúde pública, por meio do Sistema Único de Saúde, é um ganho para a sociedade. Mas a judicialização tem afetado bastante este sistema. Hoje, um paciente judicializado custa ao Estado R$ 10 mil por mês, enquanto que um paciente inserido nos programas já instituídos pelo Ministério da Saúde custa cerca de R$ 2.500 por mês.

“Dentre as ações da Abrale para diminuir este problema estão os estudos propostos ao governo para comprovar que um medicamento, quando aprovado no sistema, pode baratear o tratamento.Também entendemos que o paciente deve ser empoderado e lutar por seus direitos, além de engajar a sociedade civil na mobilização da saúde e assim termos maior voz no momento de exigir mudanças do poder público”, diz Alber Sena, coordenador de políticas públicas da organização.

A Lei Antifumo, hoje nacional, é outro exemplo importante de advocacy.

“Mais de 7 milhões de mortes anuais no mundo estão associadas a doenças tabaco-relacionadas. Pelo menos 156 mil mortes por ano no Brasil. A Lei Antifumo aprovada em São Paulo e que impulsionou a implementação nacional, foi uma de nossas grandes conquistas. Atualmente, também passamos a trabalhar com as questões que envolvem uma alimentação saudável, pois hoje nos alimentamos muito mal e muitos nem sabem o que estão consumindo. Por isso, defendemos uma proposta de rotulagem frontal, para que a informação fique bastante clara sobre o produto e todos os componentes ali usados”, informa Paula Johns, presidente da ACT.

Gestão de recursos em Saúde

No Brasil, há anos o sistema sofre com o subfinanciamento. Em tempos de crise política e econômica a situação tem se agravado e as perspectivas para os próximos anos não são favoráveis.

Muito se discute sobre como gastar menos em Saúde, sem perder a qualidade de atendimento. Mas isso seria possível? De acordo com a Dra. Ana Maria Malik, médica e professora da Escola de Administração de Empresa da Fundação Getúlio Vargas, não.

“Ao meu ver, não dá para gastar menos em Saúde. O que precisamos aprender a fazer é investir melhor o dinheiro no que realmente é necessário. Precisamos saber gastar. A prevenção de doenças, como o câncer, não vai diminuir os gastos em saúde. Pelo contrário, pode até aumentar. Por isso a prevenção não precisa envolver apenas realização de exames, e sim mudanças de hábitos. É uma mudança cultural também”, salientou.

Para André Medici, doutor em história econômica pela USP, uma possível solução seria aumentar a sinergia entre o financiamento público e o privado de saúde.

“Precisamos conversar com quem pode pagar. Hoje, é tirado de quem não tem recursos, e este dinheiro acaba não sendo utilizado em questões essenciais. Para termos uma ideia, apenas 6,5% do PIB vai para a Saúde. É muito pouco, se pensarmos nos milhões de brasileiros que precisam deste serviço. E como é gratuito para todos, o sistema, em tese, financia quem precisa, mas também a quem não precisa. Precisamos passar a fazer as contas de quanto custa a saúde da população pobre e garantir esses recursos”, colocou.

A saúde suplementar também teme por um colapso no sistema privado. É o que disse

Thais Jorge de Oliveira e Silva, médica e representante da FenaSaúde. “Temos a missão de contribuir para a consolidação da saúde suplementar no país, por meio da troca de experiências e elaboração de propostas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do setor. Os custos com as novas terapias antineoplásicas só aumentam, e muitos medicamentos com registro na Anvisa não possuem nenhum tipo de regulação pela ANS. Quanto mais moderna a terapia, maiores os custos dos tratamentos. Nós realmente precisamos estudar como utilizar a verba para o que é necessário”.

 

Judicialização e o direito à saúde

Com mais de 200 milhões de cidadãos, o SUS sofre com a limitação de recursos e a ineficiência da gestão. Como reflexo, em nome da garantia do direito fundamental à saúde, o Poder Judiciário tem assumido protagonismo na realização do acesso à medicamentos, insumos e procedimentos médicos para os cidadãos que o procuram, a chamada judicialização. Mas tal lógica tem desestabilizado o Sistema e gerado profundas dificuldades de gestão dos recursos, além de, em alguns casos, acentuar as desigualdades, já que só no último ano foram gastos R$ 1,6 bilhão pelo Ministério da Saúde com demandas judiciais.

E para a Dra. Maria Inês Gadelha, chefe de gabinete da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, a indústria também tem parcela de culpa neste processo.

“Eles utilizam a judicialização como instrumento de mercado e de superar a concorrência. Quem define o preço de um medicamento é quem os fabrica. Novos medicamentos, geralmente produzidos por biotecnologia, são principalmente destinados ao tratamento de doenças raras e vários subtipos específicos de câncer igualmente raros. Nessas situações, na ausência de tratamento estabelecido, as empresas podem cobrar preços mais altos. Os custos em espiral impõem a necessidade de uma nova abordagem para que os paciente de câncer tenham acesso a terapias que salvam vidas e sugerem a formação de novas relações entre a comunidade acadêmica e parceiros comerciais para acelerar o desenvolvimento de medicamentos verdadeiramente efetivos a preços sustentáveis”.

Segundo a deputada Carmen Zanotto, a judicialização acontece devido às dificuldades na atualização de protocolos clínicos.

“Este é um processo bastante moroso e burocrático no Brasil. Recentemente tivemos uma grande conquista para o câncer de mama metastático, quando a Conitec aprovou um medicamento importante, mas a luta foi muito grande. Não podemos nos esquecer que nem todos os medicamentos servem para todos os tipos de câncer. Então não é possível generalizar. Claro que precisamos ter limite de gastos, mas precisamos adequar primeiro receita e despesa, para aí sabermos quanto iremos gastar”, disse.

Outro ponto bastante discutido foi a aprovação dos juízes para a maior parte dos pedidos de ações judiciais, mesmo sabendo que o dinheiro é finito.

“Nós, juízes, recebemos as ações de medicamentos sempre acompanhadas de prescrição médicas. Assinadas por profissionais que estudaram seis anos de medicina, mais quatro anos de residência médica. Com isso, nós acreditamos que o médico saiba bem o que estão prescrevendo. Nós, juízes Estaduais, não temos um corpo técnico para nos socorrer. Então, na urgência, nós damos a liminar. Mas há anos pedimos este corpo técnico de apoio, para que nos dê sim um parecer referente às ações. Da maneira que está hoje, nós estamos passíveis de fraudes, infelizmente”, explicou a Dra. Maria Gabriela Pavolopos, juíza de direito da 13ª Vara da Fazenda Pública.

Pesquisa clínica e seus benefícios

Hoje, há um aumento da incidência do câncer em todo o mundo, seja pelo envelhecimento, aumento da população e também incorporação de fatores de risco ao cotidiano. A pesquisa clínica é um importante instrumento para lidar com esta situação, porque garante aos pacientes novas possibilidades de tratamento.

Mas no Brasil a burocracia é fator limitante. “Para se ter uma noção, nos Estados Unidos mais de 4 mil estudos são desenvolvidos por ano. Já aqui o número é de 174 em média. Isso precisa mudar. Por meio destes estudos é possível ter acesso ao melhor tratamento para a doença em questão, além de possibilitar acesso imediato a novas drogas e diminuir os gastos em saúde pelo Governo”, observou o Dr. Sergio Simon, Oncologista sócio-fundador do Centro Paulista de Oncologia.

Dentre os principais problemas da pesquisa no país estão a burocracia regulatória, é o que diz Dr. Fabio Franke, médico coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia Clínica do Hospital de Caridade de Ijuí (RS).

“As empresas multinacionais presentes no país, acabam investindo ,para pesquisa, no exterior. A demora e a burocracia acabam espantando. Para aprovar um estudo, é preciso passar por múltiplas instâncias de aprovação, como a CEP, CONEP, ANVISA. O tempo requerido para estudos mais complexos frequentemente ultrapassa 1 ano. E isso torna o país inviável para estudos de fase I e muitos de fase II. Por isso, cada vez menos estudos são trazidos para cá”, afirma.

Indicadores do câncer

Conhecer a eficiência e eficácia de políticas públicas possibilita um direcionamento estratégico dos gestores e melhorias no atendimento à sociedade. Por meio de indicadores, monitorar a qualidade e quantidade dos serviços de saúde é imprescindível para o planejamento de atividades e, assim, ampliar o acesso a tratamentos e melhorar os desfechos clínicos.

“Os dados publicados no Observatório de Oncologia objetivam avaliar e fornecer subsídios aos planejamentos de saúde, permitindo o acompanhamento das ações e o mapeamento de tendências ao longo dos anos. Com isso, queremos ampliar a conscientização a partir das informações geradas a respeito do acesso, tratamento, diagnóstico precoce, mortalidade, além de contribuir para melhorar a qualidade dos dados registrados e educar sobre a importância destes. É preciso ampliar a transparência na Oncologia e impactar as políticas públicas”, pontuou Fábio Fedozzi, diretor executivo da Abrale.

Em 2011, o Ministério da Saúde começou um trabalho de revisão da política de Oncologia, com a finalidade de avaliar e monitorar os hospitais e, assim, apoiar os gestores na tomada de decisão a respeito dos serviços de saúde.

“Com a aprovação, tivemos a publicação de duas portarias. A 874/2013 tem o objetivo de reduzir a incidência e mortalidade por câncer e as incapacidades causadas por esta doença, bem como contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos usuários com câncer, por meio de ações de promoção, prevenção, detecção precoce, tratamento oportuno e cuidados paliativos. Outra portaria aprovada foi a de nº 140, que redefine critérios e parâmetros para a organização, planejamento, monitoramento, controle e avaliação dos estabelecimentos de saúde habilitados na atenção especializada em Oncologia e define as condições estruturais, de funcionamento e de recursos humanos para a habilitação destes estabelecimentos no âmbito do SUS”, diz Patricia Sampaio Chueiri, médica sanitarista. Professora da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Prevenção e fatores de risco

O uso nocivo do álcool é um dos quatro fatores de risco evitáveis mais comuns para as principais doenças não-transmissíveis, e está relacionado a 3,3 milhões de mortes por ano. De acordo com estudo realizado pela Universidade de Otago, na Nova Zelândia, quando ingeridas de maneira abusiva e até mesmo moderada, as bebidas alcoólicas podem estar relacionadas a 7 tipos de câncer: boca, garganta, laringe, esôfago, fígado, cólon, intestino e mama.

No país, o consumo aumentou mais de 43% em dez anos - o maior crescimento foi observado entre adolescentes e mulheres. Durante a 66ª Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde, o Brasil se propôs a reduzir, até 2025, 10% o uso nocivo do álcool. E realizar políticas públicas de controle da publicidade do álcool pode ser um caminho.

“Mas, infelizmente, esta não é uma tarefa fácil, afinal a indústria da cerveja está altamente ligada ao Governo. As doações do setor de bebidas para as eleições de 2014 chegaram a mais de 92 milhões de reais. Este é um setor que movimenta muito dinheiro em nosso país. Mas perdemos 7,3% do PIB com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, em torno de 372 bilhões de reais (em 2014). Por outro lado, o segmento cervejeiro, com faturamento anual de 70 bilhões de reais, recolhe 21 bilhões em impostos por ano. Nos últimos anos, o SUS contabilizou 313 mil internações por alcoolismo, ao custo anual de 249 milhões de reais. Então quando o Estado é omisso, o mercado toma conta”, declarou Dr. Alan Vendrame, advogado, doutor e pós-doutor em políticas públicas na saúde pelo departamento de psiquiatria da UNIFESP.

Com o cigarro não é diferente. É o que disse Mônica Andreis, vice-diretora da ACT.

“Ainda vemos muito marketing desta área, seja no uso dos jovens para as peças publicitárias, seja na localização nos pontos de vendas, próximos a chocolates e balas. Entre os adolescentes que experimentam cigarro, 50% continuarão a fumar nos próximos 15 a 20 anos, segundo a OMS.  90% dos fumantes começam a fumar na adolescência. São motivos como estes que nos fazem trabalhar incessantemente para o reconhecimento social de que muitos casos de câncer são passíveis de prevenção pela redução de fatores de risco”, destacou.

Não existe uma cura para o câncer. Existem várias

Pesquisa realizada pelo Instituto Lado a Lado Pela Vida, com 1.132 homens a partir dos 18 anos, de todo o Brasil, mostrou que eles ainda encontram bastante dificuldade não só na busca pelo médico, como até mesmo em assumir que há um problema de saúde presente. A depender da região do país, o desafio fica ainda maior.

Segundo Francisco Norberto Moreira da Silva, Coordenador Nacional da Saúde do Homem do Ministério da Saúde, a saúde integral tem sido trabalhada incansavelmente pelo Governo.

“Entendemos que a saúde como um todo é importante. Temos nos preocupado com diferentes vertentes, que vão desde a questão da informação - no âmbito rural, percebemos uma grande falta de conhecimento destes homens quanto ao cuidado com a saúde -, até mesmo se o SUS oferece o serviço de forma correta para este público. Sabemos que o urologista está lá na ponta, então será que o clínico geral sabe como tratá-lo? Em um dos seminários que fizemos, escutamos diversas dúvidas, até mesmo quanto a que exame realizar primeiro, toque ou PSA. Precisamos levar em consideração tudo isso. Outra discussão que precisa ser levantada é sobre diagnosticar precocemente ou rastrear o câncer de próstata. Mas isso deve ser feito em parceria com o Inca, pois eles são os responsáveis pelo rastreamento do câncer no Brasil”, explicou.

Este também é um dos principais desafios do Instituto Lado a Lado, responsável pela campanha Novembro Azul. “A campanha é referência na missão de orientar a população masculina a cuidar melhor da saúde e procurar o médico com mais frequência. Porém, os homens resistem à esta ideia e acabam descobrindo não só o câncer de próstata, como outros problemas de saúde, tardiamente. Por este motivo trabalhamos de novembro a novembro pela saúde de todos eles”, contou Marlene Oliveira, presidente do Instituto.

#PacientesNoControle

Este é o nome da campanha encabeçada pela Femama, que objetiva mostrar ao paciente a importância de enfrentar o câncer ativamente, com empoderamento para ser, junto à equipe médica, responsável por seu tratamento.

“Acreditamos que ter atitude exige coragem. A atitude estimula o paciente a se envolver ativamente com o próprio diagnóstico e tratamento, exigindo o melhor para si. É muito importante que ela conheça seu próprio câncer, buscando informações qualificadas para compreender termos e situações, e se sentir mais segura. Também é fundamental tirar dúvidas com o médico e participar das decisões do tratamento”, comentou Dra. Maira Caleffi, mastologista e presidente da Femama.

A fisioterapeuta Patrícia Taddeo trouxe o outro lado da história: o profissional da saúde. Para ela, é preciso olhar com um maior cuidado para a humanização no tratamento oncológico.

“A palavra empoderamento está na moda. Falamos muito sobre a importância do paciente também ser dono de seu tratamento, mas será que nosso sistema de saúde permite isso? No SUS, em especial, é comum ouvirmos reclamações de pessoas dizendo que o médico nem as olharam direito e já receitou algum remédio. Mas será que este médico também não está com muito trabalho, e por isso a falta de tempo? E será que este médico está preparado para permitir que o paciente também tenha poderes? Precisamos resolver essas questões antes de tudo, para que possamos ter uma rede de saúde ampliada, que possa cuidar e informar corretamente o paciente”, colocou.

 

30 anos de TMO no Hospital Albert Einstein

O transplante de células-tronco hematopoiéticas, popularmente conhecido por transplante de medula óssea, é importante opção de tratamento para Hematologia e Onco-Hematologia. Em alguns casos, inclusive, esta é a única opção que proporcionará a cura da doença.

Nestes 30 anos de procedimentos, mais de 1.000 pessoas foram transplantadas (no Hospital Albert Einstein)e tiveram uma segunda chance para viver intensamente.

Dentre as principais preocupações da instituição está a preocupação com a qualidade do serviço oferecido. Por isso, apostam nas acreditações.

“Integração entre os departamentos, envolvimento dos profissionais, melhor aceitação das mudanças necessárias e acompanhamento de indicadores que permitem mensurar a qualidade do cuidado e melhoria da assistência são alguns dos principais benefícios de termos nosso serviço acreditado. O Programa de Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Einstein é o primeiro fora dos Estados Unidos a receber o certificado da Foundation for the Accreditation of Cellular Therapy (FACT) por cumprir padrões de excelência e qualidade”, contou Dra. Andreza Ribeiro, médica do Centro de Oncologia e Hematologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Dr. Nelson Hamerschlak, coordenador do programa de Oncologia e Hematologia e Transplantes de Medula Óssea do Hospital Albert Einstein, aproveitou o momento para destacar as dificuldades enfrentadas devido à falta de medicamentos fundamentais.

“Seja devido ao alto-custo destas drogas, seja pelo desinteresse por parte da indústria, como no caso do Melfalano e Carmostina, ou pela falta de qualidade, como o caso da Asparaginase de origem chinesa, ou até mesmo pela indisponibilidade no SUS, os problemas são muitos. E nós queremos mais que o essencial. Queremos as medicações de alto impacto em doenças onco-hematológicas, como o Rituximabe em outros tipos de LNH e Bortezomib, Carfilzomib e Daratumumab, em mieloma múltiplo. Queremos medicações que atingem necessidade médicas não atendidas, como o Brentuximabe para o linfoma de Hodgkin refratário, novos inibidores de vias intracelulares em LLC recaída. Precisamos acelerar a aprovação de drogas de alto impacto, aumentar a pesquisa clínica e criarmos mais centros de referência. Medicamentos caros não devem ser utilizadas de maneira indiscriminada! Eles devem fazer parte de protocolos em centros de referência”, defendeu.

Humanização – A arte do cuidar

Qualquer situação de saúde e doença que nos torne vulnerável diante da vida se configura como um momento de crise existencial. É como se a nossa relação entre passado, presente e futuro se modificasse a partir do início de um sintoma, do resultado de um exame, de um acidente ou outro acontecimento que nos torna física e/ou mentalmente vulneráveis. E aí vem a importância do cuidado e humanização.

Mas, o que é, de fato, a humanização? Dra. Rita de Cássia Calegari, coordenadora psicossocial corporativa da Rede de Hospitais São Camilo esclareceu.

“Em uma pesquisa realizada pelo Hospital São Camilo, com enfermeiros e médicos, a resposta foi que um tratamento humanizado é aquele realizado com respeito ao paciente e em tudo o que ele é e acredita. É acolher esta pessoa e ter empatia por ela. Para isso, é muito importante que este tratamento seja parte da cultura organizacional do hospital. Também é fundamental que o trabalho seja multiprofissional, e que estes profissionais consigam trabalhar com autonomia”.

Muitos ligam o tratamento humanizado a dinheiro. Mas, de acordo com Marcelo Boeger, coordenador de especialização em hotelaria do Hospital Israelita Albert Einstein, não é bem assim.

“Existe uma importante diferença entre tratar o paciente com hospitalidade e trata-lo de maneira humanizada. A hospitalidade muitas vezes exige verba para que seja realizada, é obrigatória e é possível ensinar. Já a humanização é gratuita, ela está na pessoa, ou seja, não é possível ensinar. Para realizar um tratamento humanizado não é preciso dinheiro, é preciso ter cuidado e se importar com o próximo. É preciso conhecer as necessidades alheias e fazer o possível para resolvê-las”, disse.

Autoestima e o impacto do tratamento oncológico

O diagnóstico de um câncer mexe muito com o emocional do paciente. Além do medo que os desafios da doença causam, há também as mudanças físicas trazidas com o tratamento: queda dos cabelos, devido à quimioterapia, emagrecimento excessivo, provocado pelos efeitos colaterais dos medicamentos, e inchaço/ganho de peso, ocasionados pelo uso de corticoides são algumas delas.

São diversos os projetos existentes para ajudar o paciente no resgate à autoestima, como por exemplo o #Fortalizese, da Fundação Laço Rosa, recebeu mais de 13 mil doações de cabelos para a confecção de perucas em seu primeiro ciclo.

“Além disso, o projeto viabilizou o projeto Força na Peruca, da Laço Rosa que, em áreas de baixa renda, capacita novos ‘peruqueiros’ paro o mercado de trabalho”, contou Marcelle Medeiros, presidente da Fundação.

O projeto Quimioterapia e Beleza também leva autoestima para mulheres em tratamento oncológico. “Inédito no país, hoje ele é referência para todas que enfrentam o diagnóstico e o tratamento de diversos tipos de câncer, com informações sobre maquiagem, lenços, bem-estar. Meu objetivo era passar dicas para as mulheres, porque como paciente, senti muita falta disso quando descobri meu câncer”, disse Flávia Flores, fundadora do projeto.

É possível enfrentar o câncer com qualidade de vida e uma visão positiva sobre tal momento. É o que afirma Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia. “O diagnóstico do câncer impacta muito no psicológico dos pacientes, em especial das mulheres. Mas hoje o tratamento está muito avançado e possibilita boas chances de cura e também uma vida normal. E isso é parte da qualidade de vida. Claro que o conceito ‘qualidade de vida’ pode variar muito. Mas ao olharmos para o coletivo, com foco nas políticas públicas, é muito importante ter conhecimento a respeito e até mesmo cobrar um tratamento mais humanizado. O paciente precisa ser escutado e suas decisões devem ser respeitadas. Ele, inclusive, deve participar da escolha do tratamento e perguntar se este tratamento vai tirar muito de sua qualidade de vida”, disse.

Busque vencer

Os avanços no tratamento oncológico já não são mais novidade para ninguém. Todos os anos diversas opções são lançadas e sempre possibilitando prognósticos cada vez melhores aos pacientes.

A novidade do momento é a CAR-T Cell, tipo de tratamento que edita geneticamente as células de defesa do organismo para que elas “aprendam” a combater o câncer. O Dr. Antonio Buzaid, fundador do Instituto Vencer o Câncer e membro do Comitê Diretivo do Hospital Israelita Albert Einstein e Diretor Geral do Centro Oncológico Antonio Ermírio de Moraes - Beneficência Portuguesa de São Paulo, falou a respeito.

“São três os principais tipos de CAR-T Cell. Na técnica TIL, os linfócitos se infiltram no tumor. A depender do tumor, as chances de cura podem chegar até 30%, o que é um número bastante positivo. A TCR engendrado transforma os linfócitos normais periféricos em linfócitos com capacidade anti-tumoral, e realiza a transferência de genes codificadores de receptores capazes de reconhecer antígenos tumorais. Com isso, acontece a expansão destes linfócitos in vitro em infusão em pacientes com tumores que não tem infiltrado linfocitário exuberante. Já a técnica CAR-T Cell Fusão usa parte do anticorpo contra o antígeno tumoral com domínios de sinalização intracelular. Neste caso, o antígeno precisa estar na superfície da célula”, explicou.

A cura para o câncer é a busca de médicos e pacientes. E, quando ambos trabalham em conjunto, os resultados positivos aparecem.

“Nós trabalhamos muito para acertar, mas é claro que nós médicos nos engamos também. Não existem médicos infalíveis. Precisamos sempre colocar todas as cartas na mesa e tomar a decisão junto ao paciente. A escolha do caminho a seguir deve ser dele. Outro ponto importante é a segunda opinião médica. Se o paciente ficou com alguma dúvida, é um direito que ele tem de procurar um outro especialista, para então ter as certezas que ele procura”, comentou o Dr. Fernando Maluf, oncologista Fundador do Instituto Vencer o Câncer, chefe da Oncologia Clínica do Centro Oncológico Atonio Ermírio de Moraes e membro do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

 

Educação para ampliar a assistência oncológica

No Brasil, a atenção primária/medicina de família vem ganhando espaço importante e crescendo nas estatísticas. Este crescimento se dá ao Programa Mais Médicos, que trouxe maior proximidade entre médicos e população.

“Quando falamos em assistência oncológica, falamos em uma assistência em rede. Mas ainda enfrentamos dificuldades. Por isso a educação é fundamental para que o paciente passe a ser bem assistido desde o primeiro momento em que procura um médico, na UBS. Estes profissionais precisam ser treinados para entender um pouco sobre todas as doenças, e assim conseguir ajudar com o diagnóstico precoce”, salientou Dr. Giuliano Dimarzio, Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

O projeto de ensino à distância da Abrale, em parceria com o Instituto de Ensino e Pesquisa do Einstein, Onco Ensino, objetiva incentivar a capacitação e atualização dos profissionais da saúde e médicos envolvidos no atendimento oncológico de todo o país.

“Ao total, são 125 professores especialistas em diferentes áreas e mais de 7 mil alunos matriculados. O projeto já soma mais de 119 parceiros, dentre eles hospitais especializados. Nossos alunos estão em 22 estados e Distrito Federal”, mostrou Leandro Mião, coordenador de educação à distância da Abrale.